Grandes projetos ambientais: entendendo e afinando a visão para diferentes escalas

29/1/2019

Paula Vieira Rua Pinto Guedes*

O trabalho de gestão ambiental é formado por uma ampla gama de visões distintas, problemas, temáticas, questões sociais, políticas e econômicas que se interpõe sobre questões técnicas multi e interdisciplinares que nenhum curso de graduação ou mesmo de pós-graduação que surgiram nos últimos anos pode suprir.

Tendo trabalhado e estudado desde o início da década de 90 sempre na área ambiental, logo após concluir a licenciatura e bacharelato em Biologia, iniciei minha vida acadêmica realizando Mestrado em Ecologia, na área geoprocessamento e sensoriamento remoto, à época uma área novíssima e moderna, porém o meu objetivo era tentar adquirir conhecimento multidisciplinar, pautando-me na visão dos grandes naturalistas do século XIX, de modo a conciliar o conhecimento das antigas ciências naturais à “high tech” área de geoprocessamento. Também nessa época comecei a perceber e a vislumbrar que, à semelhança dos naturalistas, a teoria sem a experiência de campo não agrega solidez ao conhecimento e à prática ambiental e que o mapeamento atualizado das informações é uma das principais ferramentas para a contextualização e resolução dos problemas do meio ambiente.

E é oriundo da visão espacial, um dos fatores mais determinantes para a adequada problematização, resolução e posterior tomada de decisão das intricadas questões ambientais: a escala de abordagem.

A correta definição e utilização da escala de abordagem ou de trabalho, além de fundamental para projetos de mapeamento propriamente ditos, é relevante e eficaz para o correto diagnóstico e prognóstico dos vários tipos de estudos ambientais.

Apenas para exemplificar a questão das escalas num projeto de mapeamento, por exemplo. No final da década de 90 e início dos anos 2000, o meu primeiro trabalho na área de consultoria ambiental foi no PRODEAGRO – Programa de Desenvolvimento Agroambiental do Mato Grosso, um megaprojeto financiado pelo Banco Mundial que tinha como objetivo o monitoramento e o gerenciamento dos recursos naturais, o ordenamento territorial e a realização de um conjunto de atividades voltadas ao desenvolvimento sustentável do Estado de Mato Grosso. Para isso era necessário realizar um zoneamento agroecológico e o zoneamento dependia de bons produtos cartográficos em escalas compatíveis para várias disciplinas de todo o estado. Assim, durante alguns anos trabalhei no mapeamento da vegetação e uso das terras (do inglês “land use”), ou como se usa frequente e equivocadamente no Brasil, do uso do solo. O projeto contemplou várias expedições de verificação em campo, muito importantes, mas onerosas em termos de custos e de tempo. Já estávamos quase no final dos mais de 60 produtos de mapeamento de vegetação e uso das terras, o orçamento já apertado, quando os clientes, técnicos da secretaria de Planejamento SEPLAN, amparados por renomados professores de botânica da ESALQ/USP e da Unicamp solicitaram não apenas o mapeamento, como também a realização de estudos florísticos e fitossociológicos das áreas de matas de grotões. Certamente seria uma oportunidade única para os pesquisadores estudarem esse tipo de vegetação, era necessário a contratação de helicópteros e escaladores para descerem as matas de rapel após treinamento para a coleta correta do material, além do auxílio de alguns pesquisadores mais corajosos e atléticos. Um trabalho difícil, caro, arriscado. E sem dúvida um grande problema para nós da empresa de consultoria contratada. Seria mesmo relevante para o objetivo do Projeto aquela demanda? Fiz as contas da área de abrangência e da escala de “saída” das matas de grotão no mapa, mostrei aos clientes e professores das universidades que a tal mata não apareceria com mais de 1 ou 2 milímetros de largura no mapa e que a informação coletada, apesar de importante para o conhecimento botânico e científico do Mato Grosso, não era na verdade tão relevante para os propósitos do projeto e… bingo! Conseguimos mostrar aos clientes e professores que aquela pesquisa era de menor importância para os estudos ambientais e as tomadas de decisão pertinentes às diretrizes do ordenamento e zoneamento ambiental do estado.

Depois dessa experiência, ao longo da minha vida e dos vários projetos ambientais que tive a oportunidade de participar, sempre utilizei os conhecimentos advindos da noção de escala assimilados na Ecologia e na Geografia para permear os critérios de escolha e relevância dos temas e a adequada escolha das informações que irão de fato fazer a diferença nas respostas aos desafios e problemas inerentes aos grandes projetos ambientais.

 

*Paula é bióloga na Fundação Ezute