Consciência situacional, uma necessidade

Artigo escrito por Tarcísio Takashi Muta, presidente da Fundação Ezute, para a Revista Tecnologia & Defesa (nº 155)

Um dos principais desafios para o Estado brasileiro tem sido responder às ações do crime organizado, e em alguns casos dos criminosos comuns. Essa vulnerabilidade é percebida em razão da adoção de abordagens isoladas oferecidas como solução, impedindo avanços sustentáveis na questão, que hoje escala o nível da segurança pública e alcança um patamar mais elevado, que tange a segurança nacional envolvendo diretamente as Forças Armadas.

Há diversos estudos que examinam as razões que levaram a esta situação, e a cada dia fica mais evidente a necessidade de integração de sistemas de inteligência em Segurança e de Defesa no país, em prol de uma consciência situacional aumentada, capaz de resultar em maior êxito nas atividades singulares, conjuntas ou até mesmo combinadas, estas últimas envolvendo pares internacionais.

Conduzida em várias esferas de governo, a estruturação de um Sistema de Sistemas de Segurança e Defesa deve atender às especificidades de cada organização para cumprimento de suas respectivas missões, permitindo a análise dos dados, criação de informações, formulação de diagnóstico conjuntural de diversos cenários e, por fim, o emprego de conhecimento de forma prospectiva, político-estratégica, operacional e tática, nos campos nacional e internacional, de forma a agilizar a tomada de decisão, a análise de inteligência e o planejamento de curto, médio e longo prazo, sem restringir, porém, as operações singulares dos órgãos governamentais e das Forças Armadas.

As ações criminosas têm várias origens dentro do território nacional enquanto outras provêm de países vizinhos, de onde drogas e armamento cruzam a fronteira com o Brasil, ultrapassando a capacidade das ações policiais, sejam elas estaduais ou federais. Desse modo, a criminalidade, antes isolada em área e atuação, tornou-se transnacional e aparelhada, valendo-se de estruturas que são centralizadas no comando, mas descentralizadas na ação e utilização de insumos que chegam ao país através de nossas fronteiras.

Para maximizar as ações contra crimes transnacionais no âmbito da Segurança e Defesa é preciso introduzir modelos de informação e gestão de crise que se valham de uso intensivo de tecnologia, garantindo a integração de conhecimento na proteção das fronteiras, do espaço aéreo e cibernético, dando especial atenção para operações em ambiente interagências, pedra angular de um novo cenário onde os entes da Segurança e da Defesa interoperam para se antecipar ao crime, compartilhando metas, racionalizando esforços, aumentando suas capacidades e entregando resultados mais efetivos à sociedade com relação à ocorrência de ilícitos como crimes de tráfico transnacional de drogas e de armas de fogo, contrabando de veículos, medicamentos e cigarros, evasão de divisas, desmatamento, tráfico de pessoas, e outros crimes sujeitos à investigação como homicídios, incêndios criminosos, roubos, sequestros, vandalismo, etc.

O processo de integração sistêmica entre Segurança e Defesa deve explorar a ação de interoperar um conjunto de sistemas que, de forma construtiva, sincronizada e no timing necessário, transformem seus dados isolados em informações que contribuam para a criação da consciência situacional necessária para planejar e coordenar ações de combate a estrutura de crime que atenta contra a sociedade brasileira.

Este Sistema de Sistemas deve ser gerenciado e mantido por elemento central para orquestrar e potencializar a obtenção dos resultados decorrentes desta interoperabilidade, um Núcleo de Informações de Segurança e de Defesa capaz de responder eficazmente à adoção de uma política pública integrada para essas atividades.

O compartilhamento de informações providas por diversos sistemas já existentes, em desenvolvimento, ou ainda em processo de concepção, permite que seja elaborada, em cada nível, a consciência situacional integrada ao teatro de operações. Desta forma, uma melhor linha de ação poderá ser elaborada desde o planejamento, passando pela tomada de decisão e culminando com sua execução em tempo hábil, em resposta efetiva aos problemas de Segurança que se estendem à Defesa.

Proporcionar a unidade de esforços é, sem dúvida, o empreendimento cooperativo mais relevante da atualidade, no que concerne ao gerenciamento de crises e otimização do emprego de recursos, sejam eles humanos, logísticos ou financeiros. Essa condição envolve, além das forças de Segurança e das Forças Armadas, grande número de órgãos e entidades da administração pública. Em algumas situações, organizações não governamentais, empresas privadas e organismos internacionais poderão ser incluídos nesse modelo, como partes interessadas e até mesmo como atuantes. A Defesa situa-se como um dos vetores principais de referência, dentro da linha de ação adotada, para a prevenção de ameaças, reação a hostilidades ou para gerenciamento de crises, junto de outras estruturas de poder do Estado e da sociedade.

Consciência situacional é um conceito chave em qualquer domínio no qual o aumento da complexidade no teatro de operações pode afetar adversamente a tomada de decisão. Ter um conhecimento da situação completa, precisa e atual e poder atuar de forma conjunta com racionalização de recursos e efetividade nos resultados são condições absolutamente necessárias para o enfrentamento dos desafios atuais no que passa a ser um único domínio, o de Segurança e Defesa do país.

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